The Gipsy Cab

Nascido em 25/11/1979, Rafael Braz é advogado aposentado e jornalista. Atualmente é editor de cinema da Revista Paradoxo – www.revistaparadoxo.com – e colabora com outras publicações do gênero. Cria assumida da cultura pop, é um apaixonado por cinema, seriados de TV, música, literatura e futebol. Há quem diga que ele gasta tempo demais com isso, mas ele não concorda.

À Prova de Morte

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O projeto Grindhouse nasceu a partir de mais um dos improváveis desejos de Quentin Tarantino, que queria homenagear mais um dos gêneros cinematográficos que o influenciaram. Como o cineasta já havia homenageado as novelas policiais em Cães de Aluguel e Pulp Fiction, o cinema negro dos anos 70 em Jackie Brown, e o kung fu spaghetti em ambos Kill Bill, resolveu que era hora de prestar seu tributo ao cinema de terror B. Para dar força ao projeto, o diretor convidou seu amigo Robert Rodrigues para ajudá-lo a produzir o filme.

Tarantino cresceu freqüentando sessões de Grindhouse, onde dois ou mais filmes de terror toscos eram exibidos em sequência, intercalados com trailers igualmente mal feitos. Nessas sessões, a qualidade da projeção normalmente era lamentável e não era incomum os filmes virem incompletos, com rolos faltando ou até mesmo queimando no projetor.

A idéia inicial era produzir dois médias-metragens – um dirigido por Rodriguez e outro por Tarantino – de cerca de 50 minutos cada, convidar alguns outros amigos [Eli Roth, Rob Zombie, Edgar Wright] para “dirigir” alguns trailers falsos, e pronto. Teríamos uma reprodução de uma sessão Grindhouse. O problema é que tanto Planeta Terror (segmento de Rodriguez) quanto o tarantinesco À Prova de Morte ficaram com cerca de 80 minutos de projeção, fazendo com que a duração final do filme fosse superior às três horas. Nem as críticas favoráveis ajudaram. O filme foi mal nas bilheterias americanas e os estúdios e distribuidoras internacionais acharam melhor dividi-lo em dois longas para ter renda em dobro. Não só isso, no Brasil os filmes foram separados por um intervalo superior a um ano. Prometido pra março de 2008, À Prova de Morte só chega aos cinemas nacionais em outubro do mesmo ano.

Com a duração liberada, o diretor teve liberdade para brincar a vontade. Enquanto Robert Rodriguez se preocupou em deixar seu filme esteticamente parecido com os filmes-B setentistas, Tarantino notadamente se divertiu fazendo À Prova de Morte. O filme começa com estética semelhante à de Planeta Terror, com brincadeiras de frames faltando, erros de continuidade etc. Mas isso dura pouco mais de meia hora. No restante dos quase 110 minutos de projeção, o filme se transforma em preto e branco e depois, como em um passe de mágica, ganha um visual com mais atual, com cores vivas e qualidade de projeção impecável.

Além do gênero homenageado, Tarantino também recheia o filme de homenagens a todos seus trabalhos anteriores. Personagens recorrentes de Kill Bill (em duas cenas impagáveis), um toque de celular ou citações que apenas os mais aficionados irão se dar conta tornam o filme mais prazeroso de ser visto. É um exercício descobrir todas as referências. Acredite, são muitas.

A premissa é boba: um dublê (Kurt Russel) que utiliza seu carro “a prova de morte” de maneira sádica para matar mulheres nas estradas de pequenas cidades dos EUA. Vale destacar o empenho em se criar o suspense necessário no começo do filme. Com a falta de história, sobra tempo para o diretor implantar seu estilo. Toda verborragia de seus diálogos, seu fetiche pelos pés femininos, os longos e lentos planos, o erotismo, a importância e a força que ele dá às suas protagonistas, está tudo presente.

As atuações também homenageiam os filmes-B e são toscamente deliciosas. Kurt Russel (um tanto canastrão), Vanessa Ferlito (em uma sequência de dança de tirar o fôlego) e Zoe Bell merecem mais destaque que o resto. A última, inclusive, realizou todas suas ações no filme sem dublê, o que é surpreendente. Quem vir o filme com certeza entenderá.

Diversão garantida para os já iniciados em Tarantino, o filme pode ser um tanto indigesto para quem não dá a mínima para as referências cinematográficas ali presentes. A necessidade de saber “o que é” o projeto, um roteiro simples e o excesso de diálogos longos são os principais motivos que renderão vários comentários negativos em rodas de discussão.

Nota: 7

- Texto originalmente publicado na revista Welcome Planet de Setembro/Outubro de 2008.

Written by thegipsycab

Agosto 26, 2008 em 2:53 am

Batman – O Cavaleiro das Trevas

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Que o diretor Cristopher Nolan reinventou o Batman com seu filme de 2005 não é novidade para ninguém, mas aposto que poucos esperavam o que estava por vir três anos depois. O diretor juntou novamente a mesma equipe e elevou o personagem a outro nível em seu mais novo filme, O Cavaleiro das Trevas.

A tal abordagem realista que Nolan conferiu a Batman Begins ganha novos ares aqui. A cidade parece mais sóbria e ainda menos fantasiosa que no filme anterior. Os limites impostos ao traje do personagem principal e as discussões acerca de como melhorá-lo também ajudam aproximar a obra da realidade. Claro que tem muita coisa absurda, mas até elas são explicadas de alguma forma.

O diretor também acerta a retirar o alívio cômico dos ombros do mordomo Alfred. O sarcasmo e as frases bem colocadas ainda estão presentes nos diálogos do personagem, mas soam mais naturais que no filme anterior.

Ainda corrigindo suas falhas prévias, Nolan filmou/editou as cenas de luta de forma mais competente dessa vez, tornando-as, assim, mais compreensíveis. A pouquíssima utilização de computação gráfica até surpreende para um filme do gênero. Mas se O Cavaleiro das Trevas é ainda melhor que seu antecessor, isso se deve ao talento de seus protagonistas que deram profundidade ímpar aos personagens.

A atuação de Christian Bale já é natural. Ele é o Batman e sabe disso. Sir Michael Caine, Morgan Freeman e Gary Oldman também retomam seus papéis com classe e autoridade. A chata e inexpressiva Katie Holmes foi substituída pela talentosa Maggie Gyllenhaal e não faz nenhuma falta. Aaron Eckhart quase rouba a cena com a transformação do promotor Harvey Dent ao longo da projeção, mas não há como negar que o filme é mesmo de Heath Ledger.

O Coringa é simplesmente assustador e não é necessário conhecer suas origens para temê-lo, muito pelo contrário, e Nolan sabe disso. Não há nada daquela figura caricata vivida por Jack Nicholson no filme de Tim Burton em 89. Ledger criou um personagem perturbado, anárquico e, por isso, imprevisível. Nunca se sabe o que pode acontecer quando a figura de rosto desfigurado e cabelo desgrenhado surge em tela. Seus trejeitos, sua voz e, principalmente, sua risada são capazes de causar arrepios. É de se lamentar que o ator de apenas 28 anos tenha falecido no início do ano por uma overdose acidental de medicamentos. Um cara que é capaz de arrancar elogios como o cowboy homossexual de Brokeback Mountain e o Coringa, dois personagens completamente distintos e opostos, com certeza seria capaz de muito mais.

Por fim, Batman – O Cavaleiro das Trevas pode não ser perfeito, mas é grandioso. Nolan elevou os padrões para filmes baseados em quadrinhos, mas mais justo do que compará-lo a outros do gênero é fazê-lo com grandes obras do cinema. É como se o “intocável” Elliott Ness tivesse uma ajudinha extra em sua luta contra Al Capone… Por mais absurdo que possa soar, o novo Batman é um filme denso e pesado, de elevadíssima carga emocional e que demora um pouco para ser digerido. É daqueles que deixam a sala em silêncio enquanto as pessoas caminham para a saída.

Nota: 9

Texto escrito para a Revista Welcome Planet que circularia em agosto. A revista não foi publicada.

Written by thegipsycab

Agosto 21, 2008 em 3:37 pm

O Procurado – Deliciosamente absurdo

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Normalmente quando um renomado diretor não-americano faz sua estréia em Hollywood, logo se teme que ele vá se render às fórmulas e conceitos pré-definidos pela indústria. No caso do russo Timur Bekmambetov não se tratava de um temor, e sim de uma esperança.

Responsável pelo maior [maior, não melhor] filme da história do cinema russo – o fraquíssimo Guardiões da Noite –, o cineasta ainda dirigiu uma continuação nada melhor [Guardiões do Dia] e tinha planos para um terceiro, que teria o original título de Guardiões do Crepúsculo. Ainda assim, os filmes fizeram enorme sucesso na Rússia, custando pouco e superando bilheterias de blockbusters americanos.

Credenciado com esse currículo, Hollywood logo abriu os olhos para o diretor que claramente se preocupava mais com o visual “pop” de suas obras do que com o filme em si [mas rendia horrores aos cofres dos estúdios] e o escalou para dirigir a adaptação da história em quadrinhos O Procurado, de Mark Millar e J. G Jones. O engraçado é que com um bom material em mãos, o diretor russo não só deu conta do recado como surpreendeu com o resultado final.

O Procurado conta a história do pacato Wesley Gibson [James McAvoy], um contador que não gosta do que faz, odeia a chefe, e sua namorada o trai com seu melhor amigo. Os personagens Angelina Jolie e Morgan Freeman aparecem em tela para informar Wesley da existência de uma confraria de assassinos que existe há mais de mil anos e trabalha para o “destino”, para manter as coisas em ordem. Além disso, o pai de Wesley era o maior assassino da organização e foi recentemente morto por um dissidente dela. A partir daí Wesley passa por um duríssimo treinamento e descobre habilidades que desconhecia, dentre elas a estupenda capacidade de curvar uma bala.

Aqui, toda preocupação do diretor russo com a estética traz resultados. A ação é extremamente estilizada, cheia de bullet-times e algumas das situações mais absurdas já vistas no cinema. A trilha sonora é eficaz e a edição de som do competente Jon Title [Diamantes de Sangue, O Gângster] confere ao filme apuro técnico e uma agilidade invejável.

James McAvoy mostra porque é um dos novos queridinhos da indústria e é muito legal ver a transformação do personagem ao longo do filme. Morgan Freeman já está no piloto automático e suas atuações sempre mantêm aquele nível correto: não são ruins, mas também não são nada demais. Enquanto isso, Angelina Jolie aparece magérrima e, ainda assim, extremamente bela e sedutora.

Surpreendentemente, a indústria hollywoodiana fez muito bem a Timur Bekmambetov, que soube fazer as concessões certas. Toda exuberância visual do diretor casou perfeitamente com o clima necessário para adaptar uma HQ como O Procurado aos cinemas. Não espere um filme realista ou algo do tipo. Se você é daqueles que vê uma coisa absurda na telona e já solta um “Falooou, hein” em voz alta, passe longe. A ação é sempre frenética, ágil e absurda. A gente sabe que a bala não faz curva ou que não é possível acertar uma bala com outra bala, mas e daí? Tudo aqui é absurdo sim. Deliciosamente absurdo.

O Procurado
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[Wanted, USA/Germany, 2008]
Diretor: Timur Bekmambetov
Elenco: James
McAvoy, Angelina Jolie, Morgan Freeman, Terrence Stamp
Gênero: Ação
Duração: 110 min.

Nota: 7

Texto originalmente publicado na Revista Paradoxo – www.revistaparadoxo.com

Written by thegipsycab

Agosto 21, 2008 em 3:26 am