À Prova de Morte
O projeto Grindhouse nasceu a partir de mais um dos improváveis desejos de Quentin Tarantino, que queria homenagear mais um dos gêneros cinematográficos que o influenciaram. Como o cineasta já havia homenageado as novelas policiais em Cães de Aluguel e Pulp Fiction, o cinema negro dos anos 70 em Jackie Brown, e o kung fu spaghetti em ambos Kill Bill, resolveu que era hora de prestar seu tributo ao cinema de terror B. Para dar força ao projeto, o diretor convidou seu amigo Robert Rodrigues para ajudá-lo a produzir o filme.
Tarantino cresceu freqüentando sessões de Grindhouse, onde dois ou mais filmes de terror toscos eram exibidos em sequência, intercalados com trailers igualmente mal feitos. Nessas sessões, a qualidade da projeção normalmente era lamentável e não era incomum os filmes virem incompletos, com rolos faltando ou até mesmo queimando no projetor.
A idéia inicial era produzir dois médias-metragens – um dirigido por Rodriguez e outro por Tarantino – de cerca de 50 minutos cada, convidar alguns outros amigos [Eli Roth, Rob Zombie, Edgar Wright] para “dirigir” alguns trailers falsos, e pronto. Teríamos uma reprodução de uma sessão Grindhouse. O problema é que tanto Planeta Terror (segmento de Rodriguez) quanto o tarantinesco À Prova de Morte ficaram com cerca de 80 minutos de projeção, fazendo com que a duração final do filme fosse superior às três horas. Nem as críticas favoráveis ajudaram. O filme foi mal nas bilheterias americanas e os estúdios e distribuidoras internacionais acharam melhor dividi-lo em dois longas para ter renda em dobro. Não só isso, no Brasil os filmes foram separados por um intervalo superior a um ano. Prometido pra março de 2008, À Prova de Morte só chega aos cinemas nacionais em outubro do mesmo ano.
Com a duração liberada, o diretor teve liberdade para brincar a vontade. Enquanto Robert Rodriguez se preocupou em deixar seu filme esteticamente parecido com os filmes-B setentistas, Tarantino notadamente se divertiu fazendo À Prova de Morte. O filme começa com estética semelhante à de Planeta Terror, com brincadeiras de frames faltando, erros de continuidade etc. Mas isso dura pouco mais de meia hora. No restante dos quase 110 minutos de projeção, o filme se transforma em preto e branco e depois, como em um passe de mágica, ganha um visual com mais atual, com cores vivas e qualidade de projeção impecável.
Além do gênero homenageado, Tarantino também recheia o filme de homenagens a todos seus trabalhos anteriores. Personagens recorrentes de Kill Bill (em duas cenas impagáveis), um toque de celular ou citações que apenas os mais aficionados irão se dar conta tornam o filme mais prazeroso de ser visto. É um exercício descobrir todas as referências. Acredite, são muitas.
A premissa é boba: um dublê (Kurt Russel) que utiliza seu carro “a prova de morte” de maneira sádica para matar mulheres nas estradas de pequenas cidades dos EUA. Vale destacar o empenho em se criar o suspense necessário no começo do filme. Com a falta de história, sobra tempo para o diretor implantar seu estilo. Toda verborragia de seus diálogos, seu fetiche pelos pés femininos, os longos e lentos planos, o erotismo, a importância e a força que ele dá às suas protagonistas, está tudo presente.
As atuações também homenageiam os filmes-B e são toscamente deliciosas. Kurt Russel (um tanto canastrão), Vanessa Ferlito (em uma sequência de dança de tirar o fôlego) e Zoe Bell merecem mais destaque que o resto. A última, inclusive, realizou todas suas ações no filme sem dublê, o que é surpreendente. Quem vir o filme com certeza entenderá.
Diversão garantida para os já iniciados em Tarantino, o filme pode ser um tanto indigesto para quem não dá a mínima para as referências cinematográficas ali presentes. A necessidade de saber “o que é” o projeto, um roteiro simples e o excesso de diálogos longos são os principais motivos que renderão vários comentários negativos em rodas de discussão.
Nota: 7
- Texto originalmente publicado na revista Welcome Planet de Setembro/Outubro de 2008.